Equipe de pesquisadores do Observatório HYBAM registrou no final de Maio um nível recorde de cheias do rio Amazonas, graças a uma campanha de medição liderada por Naziano Filizola (UFAM), André Santos (CPRM) e Roseilson do Vale (UFOPA), financiada pelo IRD com o apoio da CPRM e da Agência Nacional da Água (ANA).

De acordo com medições efetuadas em maio de 2021, estamos atualmente vivendo a maior cheia do rio Amazonas desde 1902, quando começaram os registros nas estações de controle na região. Entre 28 e 29 de Maio de 2021, o rio atingiu um nível oficial de 848 cm e foi possível medir uma vazão média de 271.000 m³/s na estação hidrométrica de Óbidos, no estado do Pará, distante cerca de 520 km de Manaus - capital do estado do Amazonas - rio acima e de 720km de Belém - capital do Pará - rio abaixo. Esta vazão é a mais forte jamais registrada para o rio Amazonas neste século e a segunda maior em mais de 100 anos de dados1.

A estação de Óbidos tem grande importância por ser a última no Rio Amazonas a ter registros hidrométricos, tem inexpressiva influência da maré e localiza-se num trecho mais estreito (!) do rio (2,5km de largura). O valor medido em maio de 2021 é inferior apenas à vazão medida em 1994 por uma equipe franco-brasileira2 na mesma localidade. No entanto, a metodologia utilizada pela equipe em 2021, além de mais rápida, é também mais precisa gerando um resultado que pode ser considerado como a maior medição de descarga líquida jamais registrada em um rio no mundo.

A bacia do rio Amazonas é a maior bacia hidrográfica do planeta, com mais de 6 milhões de km2, e está habituada a grandes inundações anuais nesta época do ano, como resultado de intensas chuvas que sobre ela se precipitam. As sociedades amazônicas aprenderam a viver com o rio - e as suas flutuações - que é tanto um recurso, quanto a sua principal via de comunicação, na ausência de pontes ou estradas. Contudo, nos últimos 20 anos, os especialistas do Observatório HYBAM (SO-HYBAM) têm observado uma intensificação dos eventos extremos, tanto enchentes como grandes secas. Em mais de um século de medições, foi observado em Óbidos que, das 10 maiores cheias, 8 ocorreram nos últimos 12 anos, com graves consequências para as populações afetadas: casas inundadas, economia paralisada, vias de comunicação cortadas, acesso a água potável e serviços básicos, como saúde, interrompidos...

Uma das causas desta subida sem precedentes está relacionada ao aquecimento das águas superficiais tanto do Oceano Atlântico quanto do Oceano Pacífico3, que interferem no processo de circulação de umidade sobre a Amazônia, causando chuvas intensas nos Andes, com repercussões em toda a bacia. Além das atuais enchentes no Brasil, o Peru, a montante, também sofreu este ano inundações e deslizamentos de terras. Finalmente, este evento "fora do normal" em 2021 e suas consequências, também podem ser vistos como um importante indicador das mudanças tanto antropogênicas – como o desmatamento – quanto climáticas que estão ocorrendo na bacia e têm sido observadas não só Brasil, mas também nos outros países amazônicos.

O Observatório HYBAM

O SO-HYBAM é coordenado pelo IRD em parceria com várias universidades e agências de água de países da região Amazônica (Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Venezuela, Colômbia). É uma estrutura de cooperação internacional criada em 2003 para obter dados de longo prazo quanto à hidrologia e hidro-geoquímica dos rios da Amazônia. Com tais observações, se busca conhecer a evolução da maior bacia hidrográfica do mundo, que por si só fornece quase 20% dos aportes de águas continentais para os oceanos. Os dados gerados pelo SO HYBAM são disponibilizados livremente à comunidade internacional através de sua plataforma web, numa abordagem ciência aberta (Open science).

No contexto da pandemia de Sars-Cov 2, onde as campanhas de medição estão limitadas, a equipe do SO-HYBAM, com seus colaboradores, tem sido a única a ter medido a extensão da cheia na bacia.

Contatos

Naziano Filizola, Universidade Federal do Amazonas (UFAM, Brasil)
Jean-Michel Martinez, Institut de Recherche pour le Développement (IRD, França)


1  Callede et al. (2004) - Evolution du débit de l’Amazone à Óbidos de 1903 à 1999. Hydrological Sciences–Journal–des Sciences Hydrologiques, 49(1) février 2004
2  Guimarâes et al. (1994) - Medição de descarga liquida em grandes rios. Rio Amazonas em Óbidos. Relatôrio Técnico da maior medição de descarga liquida realizada no mundo (279000m3/s). Publ. DNAEE-CGRH, Brasilia, Brasil.
3  No ano de 2021 está atuante o La Niña (resfriamento das águas superficiais do Pacífico nas proximidades da costa da América do Sul)

 

Cheias do rio Amazonas em 2021, Brasil