O estuário do Amazonas está agora mapeado! Este trabalho de grande escala é o primeiro passo para uma melhor compreensão do funcionamento hidrológico e sedimentar do maior rio do mundo, e deve permitir aplicações em muitos campos, desde a gestão de riscos até à ecologia. Um estudo realizado pela Universidade de Brasília e o laboratório LEGOS (França).

Um novo atlas, resultado de um estudo realizado pelo laboratório LEGOS, entre outros parceiros, foi recentemente publicado. A sua finalidade é de mapear o estuário do Amazonas, entre a cidade de Óbidos e a foz do rio 800 km a jusante, documentando a topografia - o relevo das áreas emergidas - e a batimetria - a profundidade do rio.

Múltiplas aplicações

Quem não conhece o Amazonas, o legendário e maior rio do mundo? É difícil ignorar este gigante que ultrapassa (em longe) qualquer outro rio na terra. Com uma vazão média de cerca de 200.000 m3/s, é a principal fonte de água continental para os oceanos do mundo e a principal descarga de sedimentos. Contribui para o equilíbrio do clima do planeta e participa dos mecanismos biológicos e físicos de toda a bacia atlântica. Apesar desta influência global, muitas incógnitas continuam sobre os mecanismos e este estudo, ao fornecer o primeiro atlas batimétrico do estuário, é uma contribuição fundamental.

O primeiro objetivo é compreender a hidrodinâmica deste rio tropical. Em termos concretos, a forma do leito do rio Amazonas evolui, e muito rapidamente: bancos de areia de vários quilômetros de comprimento podem formar-se ou desaparecer de acordo com as sucessivas inundações. Esta morfodinâmica muito ativa pode ser explicada por mecanismos próprios, mas também possivelmente pela crescente influencia antropogênica na bacia nos últimos anos. Como salienta Fabien Durand, pesquisador no laboratório LEGOS, "nos próximos dez anos, o equilíbrio natural do baixo Amazonas será provavelmente perturbado de forma significativa". Evidentemente, tem o desmatamento, um fenômeno importante no Brasil e que tem vindo crescendo desde 2017, mas também a construção de barragens para produção de energia, uma realidade menos conhecida mas considerável: atualmente tem cerca de 400 barragens em construção ou planeadas na bacia hidrográfica do Amazonas. Se estas infraestruturas são muito importantes no contexto de redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e para o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono, elas têm também um impacto profundo no funcionamento sedimentar da bacia hidrográfica. Portanto, o estudo fornecerá informações sobre o atual funcionamento hidrodinâmico do estuário, antes das grandes alterações...

Uma segunda aplicação deste atlas diz respeito à gestão de riscos. Embora uma grande parte da Amazônia tenha uma densidade populacional muito baixa, as margens do estuário têm grandes aglomerações com populações em crescimento, tais como Macapá, Belém ou Santarém, totalizando 4 milhões de habitantes na zona. Nos últimos anos, a área é regularmente sujeita a fenômenos extremos, como nos recordam as cheias que quebraram recordes históricos na região em Maio e Junho de 2021. Durante as inundações, cerca de 1/3 da população, mais de um milhão de habitantes, na sua maioria em assentamentos informais, está exposta, resultando em danos humanos e materiais. Este novo mapeamento do relevo das margens do rio permite agora saber com precisão quais as áreas sujeitas a inundações. O estudo contribuirá assim para melhorar a resposta a futuras cheias, uma área que pode ser de interesse para a pesquisa, particularmente em ciências sociais, mas também para os tomadores de decisões.

Não esqueçamos um terceiro campo de aplicação: a ecologia. Para dar apenas um exemplo, a comunidade científica sabe agora que as planícies de inundação, ou várzeas, do estuário, que se esvaziam e enchem com as marés e inundações, desempenham um papel no armazenamento de carbono. No entanto, os mecanismos existentes ainda não são conhecidos com precisão. Este estudo, cujos dados estão livremente disponíveis numa abordagem de ciência aberta (open science), poderá ajudar a comunidade científica dos ecólogos a investigarem melhor o assunto.

O método

"Se tal produto ainda não tinha sido realizado, conta Fabien Durand, é principalmente por causa do tedioso trabalho necessário para a sua montagem, devido à dimensão da área a ser mapeada". Dois métodos foram combinados para produzir o atlas. O primeiro, que permitiu conhecer o leito do rio, consistiu na digitalização de 19 mapas impressos do estuário da Marinha do Brasil, o que representa nada menos que 500.000 pontos geográficos digitalizados à mão, "uma enorme tarefa" continua Fabien. Para as margens e várzeas, cientistas aplicaram um método já utilizado na bacia amazônica, mas em áreas a montante da estuário, que não são afetados pelas marés. Consistiu em observar a probabilidade de inundação das margens e pântanos adjacentes utilizando imagens de satélite. A esta compilação de informação, foram adicionados dados in situ sobre o nível da água, recolhidos por estações de medição permanentes, permitindo a dedução do relevo de todas as partes inundáveis.

 


 

O artigo

“Abrangente batimetria e topografia intertidal do estuário do Amazonas”

Fassoni-Andrade, A. C., Durand, F., Moreira, D., Azevedo, A., dos Santos, V. F., Funi, C., and Laraque, A.: Comprehensive bathymetry and intertidal topography of the Amazon estuary, Earth Syst. Sci. Data, 13, 2275–2291, https://doi.org/10.5194/essd-13-2275-2021, 2021.

⇒ Link para o artigo : https://essd.copernicus.org/articles/13/2275/2021/

Fassoni-Andrade, A. C., Durand, F., Moreira, D., Azevedo, A., dos Santos, V. F., Funi, C., and Laraque, A.: Comprehensive bathymetry and intertidal topography of the Amazon estuary, Earth Syst. Sci. Data, 13, 2275–2291, https://doi.org/10.5194/essd-13-2275-2021, 2021.

 

Nesta imagem do Atlas podemos ver os dados recolhidos através de imagens de satélite. O azul e parte do amarelo indicam as áreas sempre submergidas - o leito do rio - a outra parte do amarelo e o laranja indicam as áreas inundáveis - margens e lagos inundáveis - e o vermelho as áreas sempre emergidas devido à sua elevação.