No Brasil, a Floresta Amazônica não é a única a ser ameaçada pelo desmatamento. Um estudo coordenado por pesquisadores brasileiros, no qual o IRD participou, mostra como a maioria das espécies de árvores da Mata Atlântica, que margeia o litoral brasileiro, está em risco de extinção, de acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza.

“A floresta está muito mal”, indigna-se Renato de Lima. O biólogo brasileiro, especialista em florestas tropicais, não se refere apenas à Amazônia, que captura a atenção internacional. Assim, no século XVII, a floresta atlântica, conhecida como “mata atlântica” em português, estendia-se ao longo da costa atlântica da região do Nordeste, no Brasil, ao norte da Argentina e ao leste do Paraguai. Agora, “cerca de 80% de sua área desapareceu e a floresta está limitada ao Brasil, lamenta Renato de Lima. E o que resta da cobertura florestal está muito fragmentado”. Esta floresta tropical degradada abriga 60% da população brasileira... e muitas espécies endêmicas, tanto animais quanto vegetais. Ela é por isso considerada como um ponto quente de biodiversidade ?Zona terrestre ou marinha identificada como reunindo duas condições: uma biodiversidade muito elevada e pressões antrópicas fortes sobre essa biodiversidade, bem como sobre os habitats ecológicos..

© Flickr - Mauricio Mercadante

Para avaliar a ameaça que paira sobre as espécies de árvores desta região, o biólogo e seus colegas aplicaram, a partir de dados históricos de campo, diferentes critérios usados pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) para criar sua lista vermelha de espécies ameaçadas. Os resultados são muito preocupantes: cerca de 65% de todas as espécies de árvores da Mata Atlântica estão classificadas como vulneráveis ou em perigo. Pior ainda, 82% das árvores endêmicas desta região, aproximadamente 2200 espécies que não se desenvolvem em nenhum outro lugar na natureza, estão ameaçadas de extinção. Paradoxalmente, esse é o caso do pau-brasil (ou pernambuco), uma árvore emblemática do Brasil que foi explorada por muito tempo para produzir um tingimento vemelho "brasa" e deu nome ao país.

Rumo a uma melhor conservação das espécies ameaçadas

 Apesar deste cenário alarmante, esses trabalhos publicados na revista Science têm, no entanto, impactos positivos. “Estes dados, validados pelo Centro Nacional de Conservação da Flora do Brasil, o CNCFlora, permitiram a atualização da lista vermelha da UICN e as espécies envolvidas são então protegidas pela lei brasileira", comemora o pesquisador.

O pinheiro-do-Paraná (Araucaria angustifolia), facilmente reconhecível, está em perigo grave de extinção. Sua exploração é proibida no Brasil.

© Hans ter Steege

Os resultados também podem ajudar a planejar os esforços de conservação e restauração da Mata Atlântica, em conexão com um dos objetivos de desenvolvimento sustentável, o número 15?15.2 Promover a gestão sustentável de todos os tipos de floresta, acabar com a desflorestação, restaurar florestas degradadas e aumentar significativamente o reflorestamento em todo o mundo. “A atualização desta lista permite decidir em quais espécies investir prioritariamente tempo e recursos”, acrescenta Renato de Lima. Para orientar melhor esses esforços e facilitar a implantação de áreas protegidas ou parques nacionais, os pesquisadores também mapearam as áreas onde as espécies estão particularmente ameaçadas. Por fim, a abordagem usada para obter esses resultados é suficientemente robusta para que o CNCFlora decida empregá-la também para avaliar o risco enfrentado pelas cerca de 12 000 espécies de plantas endêmicas do Brasil.

Milhões de dados analisados de forma automática

Esses resultados exigiram muitos anos de trabalho para compilar e padronizar o máximo de dados de campo... até agora armazenados em bibliotecas. “Desde 2013, três milhões de registros de herbários e inventários florestais, alguns remontando aos anos 1940, foram analisados e validados para determinar a abundância dessas espécies na região e estimar seu declínio ao longo de três gerações“ explica Renato de Lima, que coordena este banco de dados chamado TreeCo (que significa Tree Community). Para acelerar o processamento dessa massa de informações, o ecologista uniu-se a Gilles Dauby, biólogo ecologista do IRD na unidade de Botânica e Modelagem da Arquitetura de Plantas e Vegetação em Montpellier, para desenvolver um conjunto de ferramentas capaz de determinar automaticamente o grau de ameaça que paira sobre essas árvores. “Este aplicativo livre chamado ConR?Conservation R, R sendo a linguagem de programação utilizada aplica os diferentes critérios de vulnerabilidade da UICN em milhares de espécies simultaneamente”, esclarece Gilles Dauby. Por exemplo, o critério sobre a distribuição atual, outro sobre o declínio das populações ao longo de três gerações... Esta abordagem permite, portanto, comparar os resultados sobre o status de conservação de acordo com o critério escolhido. “Se tivéssemos escolhido o critério mais frequentemente utilizado, que se baseia na distribuição geográfica das espécies em vez daquele que leva em conta estimativas do declínio de suas populações ao longo das gerações, teríamos identificado seis vezes menos espécies ameaçadas", acrescenta o pesquisador. Isso sugere que o estado da Mata Atlântica brasileira, mas também provavelmente de outras florestas tropicais com destinos semelhantes, é muito pior do que se estimava até agora.

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Simon Pierrefixe para IRD le Mag'

 

Publicações

Des évaluations complètes de la conservation révèlent des risques élevés d'extinction pour les arbres de la forêt atlantique
Renato A F de Lima, Gilles Dauby, André L de Gasper, Eduardo P Fernandez, Alexander C Vibrans, Alexandre A de Oliveira, Paulo I Prado, Vinícius C Souza, Marinez F de Si-queira et Hans Ter Steege 
Comprehensive conservation assessments reveal high extinction risks across Atlantic Forest trees, Science 383(6679):219-225 ; 11 janvier 2024
https://doi.org/10.1126/science.abq5099

 

Que savons-nous de la forêt atlantique menacée ? Examen de près de 70 ans d'informations sur les enquêtes sur les communautés d'arbres
Renato A. F. de Lima, Danilo P. Mori, Gregory Pitta, Melina O. Melito, Carolina Bello, Luiz F. Magnago, Victor P. Zwiener, Daniel D. Saraiva, Márcia C. M. Marques, Alexandre A. de Oliveira w
et Paulo I. Prado, How much do we know about the endangered Atlantic Forest ? Reviewing nearly 70 years of information on tree community surveysBiodiversity and Conservation 24(9):2135–2148 ; 1er juillet 2015
https://doi.org/10.1007/s10531-015-0953-1

 

ConR : un packageR pour aider les évaluations préliminaires de la conservation à grande échelle et multi-espèces en utilisant des données de distribution
Gilles Dauby, Tariq Stévart, Vincent Droissart, Ariane Cosiaux, Vincent Deblauwe, Mu-rielle Simo-Droissart, Marc S. M. Sosef, Porter P. Lowry II, George E. Schatz, Roy E. Ge-reau et Thomas L. P. Couvreur, ConR: An R package to assist large-scale multispecies preliminary conservation as-sessments using distribution dataEcology and Evolution 7(24):11292-11303 ; 16 décembre 2017
https://doi.org/10.1002/ece3.3704