O Brasil, junto com os Estados Unidos da América e a Índia, é um dos três países mais afetados pela pandemia de Covid-19, tanto em termos de mortes como de casos confirmados (660.000 e 30 milhões, respectivamente). As dúvidas remanescentes sobre a confiabilidade dos dados oficiais (especialmente para infecções, mas também para mortes) não são capazes de contestar este triste recorde.

Por Mireille Razafindrakoto e François Roubaud, pesquisadores do IRD-DIAL, reprodução do artigo publicado em The Conversation France, 12 de maio de 2022.

Em um artigo publicado no final de 2021, destacamos os fatores de risco associados à probabilidade de ser infectado e sucumbir ao vírus durante a primeira onda da pandemia (outubro de 2020). Além dos elementos de vulnerabilidade socioeconômica comuns a outros países e agora bem documentados (pobreza, informalidade, residência nas favelas, identidade étnico-racial, etc.), o Brasil se destacou pelo papel prejudicial desempenhado por seu presidente, Jair Bolsonaro, na propagação da pandemia, que chamamos de efeito Bolsonaro.

Duas ondas depois que resultaram em mais 500.000 mortes e mais 20 milhões de casos de infecção, mas que assistiram à chegada das vacinas, será que esses resultados ainda se mantêm? Embora seja claro que a atitude negacionista do presidente impediu a implementação de uma estratégia eficaz para combater a pandemia, é muito mais difícil mostrar como ela foi traduzida em ação e quantificar seus efeitos. Isto é o que um novo estudo tenta fazer.
Como avaliar o possível impacto da ação presidencial

Serge Lima / AFP
Serge Lima / AFP

Para tentar responder a esta pergunta, duas abordagens são teoricamente possíveis, dependendo da unidade de análise escolhida: individual ou geográfica.

Para implementar a primeira abordagem, seria necessário ter dados individuais sobre uma amostra representativa da população, que forneceria informações sobre a situação de cada pessoa com relação à doença (falecida ou não, infectada ou não), e dados sociopolíticos. Por um lado, por definição, as pesquisas socioeconômicas cobrem apenas os sobreviventes (mortos não falam), enquanto as pesquisas epidemiológicas e os registros são geralmente muito pobres em informações sobre características individuais (na melhor das hipóteses, sexo e idade, às vezes fatores de comorbidade), e não incluem preferências políticas.

A única alternativa possível é conduzir a análise a nível local. Embora isto não meça os riscos individuais de ser afetado pela pandemia, tem muitas outras vantagens.

Além da possibilidade de cruzar um espectro muito amplo de indicadores a partir de uma multiplicidade de bancos de dados independentes, esta abordagem se justifica por três outras razões principais:

  • Ela permite uma cobertura exaustiva de todo o país,
  • A propagação do vírus depende em grande parte das interações sociais,
  • Diante da negação do governo Bolsonaro, as políticas foram conduzidas em nível local (estados, municípios). A análise, portanto, abrange os 5.570 municípios do país e envolve o processamento de dezenas de milhões de observações.

O primeiro resultado chave é a confirmação de que a Covid-19, mantidas inalteradas todas as outras coisas, causou mais estragos nos municípios mais favoráveis ao Presidente Bolsonaro (conforme avaliado por aqueles que votaram nele no primeiro turno das eleições presidenciais de 2018, as últimas informações disponíveis neste nível de detalhe).
Este efeito merece ser ainda mais destacado pois observa-se, em regra geral, que a tendência é oposta: de fato, em termos absolutos, os municípios bolonaristas foram poupados pelo Covid porque são "mais brancos", mais instruídos, mais ricos, etc., todos fatores de proteção contra a pandemia.

Evaristo Sa / AFP
Evaristo Sa / AFP

Uma vez levadas em conta estas características estruturais, pode-se identificar um efeito Bolsonaro específico. Esta constatação é tanto a mais durável (aplica-se a todos os sub-períodos) quanto a mais robusta. Além da idade, o único outro fator de desigualdade socioeconômica que se mantém ao longo do tempo é a pobreza, como tem sido observado na França.

A negação do presidente levou seus partidários a adotar um comportamento mais arriscado e a sofrer os efeitos do mesmo, com a consequência direta de aumentar a probabilidade de infecção para a população em geral.

A única coisa positiva que o presidente tem feito é proporcionar transferências maciças de dinheiro de emergência aos trabalhadores informais. Mas só os protegeu parcialmente, permitindo-lhes sobreviver sem um emprego em casa quando a pandemia era mais generalizada, no início da pandemia.

Os mecanismos do efeito Bolsonaro

Para ir mais longe, precisamos olhar para os mecanismos que levaram ao efeito Bolsonaro. Com os dados existentes, a adesão a duas das principais políticas que têm sido implementadas no Brasil como no mundo, a saber, medidas de distanciamento social e vacinação, pode ser testada.

Com relação à confinamento, diante da negligência do governo federal, as decisões foram variáveis e tomadas de forma fragmentada pelas autoridades locais. No entanto, estas medidas foram notavelmente bem seguidas, como evidenciado pela drástica redução dos deslocamentos dos brasileiros (dados das contas Facebook e Google), que atingiram quase 50% nos primeiros meses da pandemia.

O relaxamento das restrições e do comportamento levou a um quase retorno à normalidade até o final de 2020. A recuperação da pandemia no segundo trimestre de 2021 resultou em uma nova fase de contaminação, mas esta foi muito menos cumprida do que na primeira onda, apesar de ter sido mais severa.

Neste contexto geral, os resultados mostram que quanto mais os municípios são a favor de Bolsonaro, menos sua população tem limitado suas saídas fora de casa. Isto confirma as conclusões de dois estudos realizados no início da crise sanitária.

Isto é verdade para todos os períodos, exceto para o final de 2020, quando a pandemia estava em seu ponto mais baixo. Da mesma forma, um município mais pobre está associado tanto a uma maior mobilidade relativa quanto a uma maior mortalidade.

No entanto, o efeito protetor do confinamento é apenas parcial, como evidenciado pelo caso dos municípios com maior população idosa, que permanecem mais frequentemente afetados pela pandemia, apesar do comportamento mais cauteloso em relação aos deslocamentos.

A vacinação é o segundo fator potencial através do qual o efeito Bolsonaro pode ter tido um impacto sobre a mortalidade.

Após um início lento e apesar da resistência contínua do Presidente Bolsonaro, a campanha foi particularmente eficaz e o atraso inicial foi compensado. Em meados de março de 2022, 180 milhões de brasileiros haviam recebido pelo menos uma dose e 168 milhões haviam completado o calendário de vacinação (85% e 74% da população, respectivamente), níveis comparáveis aos da França.

Desta vez, considerando todos os fatores iguais, a propensão para votar Bolsonaro não tem de fato nenhum efeito sobre a proporção de vacinados (duas doses). É até positivo, se considerarmos aqueles que tomaram pelo menos uma dose.

No entanto, parece que inicialmente e de acordo com a intuição, os municípios bolsonaristas foram menos vacinados do que os outros. Foi somente na segunda fase que eles recuperaram o atraso. É como se os apoiadores do presidente tivessem inicialmente seguido sua propaganda anti-vacina antes de mudar de idéia à medida que os resultados nacionais e internacionais se tornavam cada vez mais convincentes.

O programa nacional de imunização, baseado na tradição histórica do Brasil como um dos países mais eficazes do mundo nesta área, superou as divisões políticas exacerbadas pela retórica bolsonarista, especialmente porque o Brasil é um dos países onde a rejeição da vacinação é menos dependente de convicções religiosas, limitando assim o apoio de grupos evangélicos, apoiadores tradicionais do presidente.

Um fluxo de declarações abertamente falsas ou enganosas

Finalmente, um conjunto de provas convergentes acusa o presidente de responsabilidade pela hecatombe brasileira de Covid-19. Entretanto, apesar de sua condenação no final de 2021 por uma comissão parlamentar de inquérito sobre dez acusações, incluindo crimes contra a humanidade, sua popularidade não parece ter sido afetada. Ele está até tentando tirar proveito disso na perspectiva das próximas eleições presidenciais em outubro de 2022, com o argumento de que ele teria... acabado com a pandemia!

Depois de declarar que era apenas uma "gripezinha", Jair Bolsonaro descumpriu abertamente as regras do distanciamento social ao participar de manifestações e multiplicando as  multidões, na maioria das vezes sem usar ele próprio uma máscara - pondo assim em questão as medidas tomadas pelas autoridades (governadores de estado e prefeitos municipais).

Dois de seus ministros da saúde, do âmbito da saúde, foram sucessivamente demitidos por suspeita de serem muito independentes e a favor de medidas de restrição e higiene. Eles foram finalmente substituídos por um militar inexperiente. (Que foi ele próprio substituído após alguns meses, nota do editor)

Bolsonaro afirmou repetidamente os benefícios da hidroxicloroquina, alegando contra todos os últimos estudos que sua eficácia tem sido científicamente comprovada. Em agosto passado, ele declarou que o uso de máscara não tinha "eficácia quase nenhuma". Em meados de outubro, quando mais de 150.000 pessoas haviam morrido oficialmente de Covid-19, ele alegou que a pandemia estava "superdimensionada". Em novembro, ele manteve esta afirmação e questionou a chegada da segunda onda ao Brasil ("conversinha de segunda onda").

Os anúncios chocantes não pararam. No dia 5 de maio de 2021, dirigindo-se aos membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, encarregada de investigar a gestão da pandemia pelo governo, ele chamou de "canalhas" aqueles que se recusam a reconhecer a eficácia do tratamento precoce com hidroxicloroquina. Ele também ameaçou a Suprema Corte Federal (STF) e atacou a China por supostamente ter criado o vírus em um laboratório asiático.
Um estudo de jornalismo de verificação de fatos analisou as declarações públicas do Presidente relacionadas à Covid-19 entre 11 de março e 11 de setembro de 2020: de 1.417 ocorrências, 653 foram encontradas como sendo abertamente falsas ou enganosas. Esta persistência é confirmada por outros estudos.

Entre as informações falsas que ele transmitiu ou inventou, podemos mencionar o anúncio de que os leitos hospitalares estariam desocupados, bem como os caixões que supostamente estariam vazios e não conteriam os mortos de Covid-19, que o Brasil teria chegado ao estágio de imunidade coletiva ou que o Supremo Tribunal Federal (STF) o teria impedido de executar sua política de contenção da epidemia... No início de 2022, o presidente chegou a afirmar que no Brasil, a variante Omicron não tinha matado ninguém.

 



Os autores agradecem Marta Castilho, Valéria Pero e João Saboia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro que contribuiram para a redação da publicação científica na base desse artigo.
Publicado na mídia online The Conversation dia 12 de maio de 2022, artigo foi traduzido ao português pela representação do IRD no Brasil.