O segundo retrato de pesquisador é dedicado a Fabrice Papa, um investigador da IRD, ligado ao laboratório LEGOS e atualmente publicado no Brasil. A sua investigação centra-se no ciclo da água e no clima, particularmente em três grandes bacias hidrográficas tropicais: o Ganges, o rio Congo e o rio Amazonas. Ele fala das suas pesquisa, do seu cotidiano e de como as questões com que lida estão diretamente ligadas aos atuais desafios climáticos, ambientais e sociais.

Fabrice Papa, chercheur à l'IRD, pendant sa présentation lors de la conférence internationale sur le suivi des fleuves d'Amérique du sud par satellites (2019)

© CPRM Brasil

Pode contar como começou a sua carreira de pesquisador?

Tenho um doutoramento da Universidade Paul Sabatier em Toulouse (França), obtido em 2003. Foi financiado pelo CNES (Centro nacional das pesquisas espaciais). Desde jà, estava interessado na contribuição da altimetria espacial para a hidrologia. Originalmente, a altimetria espacial era dedicada aos oceanos e níveis do mar. Foi apenas nos anos 2000 que começámos a utilizar esta técnica para descobrir os níveis de água em grandes bacias hidrográficas.

Depois fui para um curto pós-doutoramento na NASA em Nova Iorque, para continuar a minha pesquisa e compreender melhor o ciclo da água. Digo "curto", mas no final, fiquei lá durante 7 anos!

Foi depois desta estadia que me juntei à IRD em 2010. Desde então, tenho vindo a estudar o ciclo da água: o nível dos recursos hídricos nas regiões tropicais, a ligação com o clima, a pressão antropogênica e o impacto da hidrologia sobre o oceano. A minha pesquisa centra-se em três áreas geográficas: o subcontinente indiano, a América do Sul, especialmente as bacias do Amazonas e Orinoco, e mais recentemente a África com a bacia do rio Congo.
O que o levou a decidir fazer este trabalho?

Pode-se dizer que é uma reflexão que acompanha o clima geral dos anos 90, e as primeiras conferências da ONU sobre o clima e o ambiente, como a realizada no Rio em 1992. Nessa altura, tomámos consciência do nosso impacto sobre as mudanças em curso, e da importância da gestão da água. Depois, tornou-se tão importante que decidi ir para o lado da ciência. Na altura estava a estudar física teórica, e mudei para a ciência climática e geofísica.

Pode explicar as suas pesquisas atuais?

Desde 2010 que estou no IRD, mais especificamente no laboratório LEGOS. Estudo o ciclo da água, a ligação com o clima e a pressão antropogênica em grandes bacias tropicais.

Trabalhei primeiro em Bangalore, Índia, durante cinco anos, como parte do Laboratório Conjunto Internacional CEFIRSE (LMI). Estávamos interessados em quantificar os processos hidrológicos na bacia do Ganges-Brahmaputra. Queríamos compreender os impactos da exploração excessiva da água por várias atividades humanas, tais como a agricultura, na bacia hidrográfica. Tentámos também quantificar as mudanças recentes e futuras em termos de impacto nas populações, especialmente no delta do Ganges no Bangladesh, que é muito vulnerável à subida do nível do mar, salinização e ciclones.

No Brasil, onde estou vivendo e trabalhando agora, minhas pesquisas centram-se na bacia amazônica, que tem sofrido numerosos acontecimentos extremos durante as últimas duas décadas: secas, inundações, etc. Estamos analisando atentamente as ligações entre a variabilidade dos recursos hídricos, as alterações climáticas, as atividades humanas e os processos hidrológicos na bacia amazônica. A longo prazo, esperamos poder fornecer indicadores para compreender melhor a pressão que existe sobre o recurso hídrico, mas também as mudanças que esta pressão pode provocar para a ecologia, ou seja, para toda a floresta.

Uma segunda atividade que estamos realizando na América e em paralelo na África é promover a utilização de dados espaciais para a hidrologia. Este é um tema muito "ciência do desenvolvimento sustentável" porque estamos trabalhando a montante com todo tipo de intervenientes, particularmente os intervenientes operacionais como as agências públicas de gestão da água e dos riscos. Fazer este trabalho significa passar da hidrologia espacial como disciplina científica que nasceu há cerca de vinte anos e que até então tinha respondido a questões fundamentais para a ciência, a uma ferramenta com aplicações muito concretas para as sociedades.

Neste mesmo contexto, estamos preparando uma conferência no Brasil por ocasião do lançamento da missão espacial SWOT, uma das primeiras missões espaciais inteiramente dedicada à hidrologia. Este evento permitirá que pesquisadores, pesquisadoras e atores institucionais de toda a América do Sul trabalhem em conjunto para criar um diálogo entre os setores acadêmico e operacional: de um lado assegurar que o que acontece do lado da pesquisa seja ouvido pelos decisores e, ao mesmo tempo, assegurar que as/os pesquisadores, pesquisadoras ouçam a sociedade.

Como é que o seu trabalho se enquadra nas questões climáticas, ambientais e sociais que enfrentamos?

A hidrologia e o clima estão intimamente ligados. A variação das reservas de água nos continentes está fortemente ligada à variabilidade climática. Por exemplo, podemos olhar para o impacto de uma seca na disponibilidade de água, ou mesmo prever o impacto das alterações climáticas e da mudança global na quantidade de água disponível nos continentes. Muito do nosso trabalho contribui para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Qual é a sua vida diária como pesquisador?

Neste momento, com a pandemia no Brasil, não é a imagem clássica de um pesquisador em geociência! Acabou o trabalho de campo, estamos em casa com os filhos... Mas ainda desde casa estamos trabalhando. Neste momento, a rotina diária é o seguimento de estudantes. Tenho dois alunos de doutoramento: o primeiro é brasileiro, o segundo é da República Democrática do Congo, e trabalha sobre utilização de dados de satélite nesta bacia.

Estamos envolvidos na coordenação e gestão da pesquisa: criação de projetos e obtenção de financiamento. E há todas as atividades relacionadas com o lançamento da missão SWOT para 2022. Como membro da equipa científica desta missão, coordeno um grupo dedicado à ciência fluvial, lidero um grupo de trabalho sobre dados SWOT para a hidrologia. 20 anos após a decisão de lançar esta missão, estamos preparando o lançamento com os nossos colegas sul-americanos: há campanhas de calibração a serem realizadas no terreno, e temos agora de nos preparar para a exploração dos dados que, esperamos, vão revolucionar a hidrologia espacial!


Gratidão a Fabrice por responder às nossas perguntas!